CONVIVENDO COM A BIPOLARIDADE

 

Preconceito, falta de informação, estigma social. Sofro tudo isso por ter um transtorno mental: convivo com a bipolaridade.

O Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), ou Transtorno do Humor, leva a pessoa a ter crises (ou episódios) de depressão (humor deprimido), de mania (humor eufórico), de hipomania (mais leve do que a mania) e episódio misto (quando ao mesmo tempo aparecem sintomas da depressão e da euforia). Esses episódios variam de duração, de quantas vezes acontecem na vida da pessoa e do espaço de tempo entre uma crise e outra (pode ser de anos). Quando há depressão e mania o diagnóstico é de TAB tipo I, quando há depressão e hipomania é o que se chama TAB tipo II. Existe a chamada ciclotimia, que é a variação de um polo a outro em um curto espaço de tempo, podendo chegar a ser em um mesmo dia. O episódio de mania pode, eventualmente, ser acompanhado por um surto psicótico (durante o qual a pessoa tem delírios ou pensamentos de grandeza. Pode acreditar ser a reencarnação de Jesus Cristo, ou ser alguém famoso, ou ter muito dinheiro, por exemplo).

Caso a pessoa tenha tido ao longo da vida apenas uma ou mais crises depressivas os médicos a classificam como sendo portadora de depressão unipolar. Porém se em meio a isso tudo tiver tido apenas UM episódio de mania (euforia) ou de hipomania, já se caracteriza a depressão BIPOLAR.

O diagnóstico é muito difícil e em média os médicos levam 8 anos para chegar a ele. Isso por vários motivos: é muito mais fácil o diagnóstico da depressão do que da mania (que às vezes nem é relatada ao médico porque a pessoa acredita ser um traço de personalidade – foi o que aconteceu comigo – principalmente a hipomania). Além disso a pessoa pode passar por períodos muito longos sem sintomas, ou seja, assintomática, porém tendo essa doença, que é crônica (permanente), sem saber que a tem.

O diagnóstico é feito com base nos sintomas, no que o paciente e às vezes parentes e amigos relatam, na anamnese (escuta médica sobre a vida do paciente desde doenças na infância e sobre histórico de problemas de saúde de seus parentes em grau mais próximo), e observação clínica.

Acredita-se que a principal causa da doença, que atinge um em cada 70 indivíduos, seja o fator genético, porém pode-se nascer com a predisposição e nunca desenvolver a doença. Isso vai depender de fatores psicológicos (como a convivência com parentes) e até ambientais (como se lida com os problemas do dia a dia), por exemplo.

Normalmente a crise, ou um episódio de variação de humor, é desencadeada por algo, que os médicos chamam de “gatilho”. No meu caso o gatilho foi o suicídio de minha mãe quando eu tinha 16 anos (que me levou à minha primeira depressão). Ela também era bipolar (na época, anos 80, a doença era chama de Psicose Maníaco Depressiva).

Fui tratada por mais de 10 anos como sendo portadora de depressão unipolar, e inúmeras vezes o tratamento, só com antidepressivos e sem estabilizadores de humor, me levava ao outro polo, de euforia, que eu não conhecia e pensava tratar-se de minha personalidade destemida e em certos momentos difícil.

Como era essa euforia? Eu ficava irritada, impaciente, não conseguia ouvir ninguém porque interrompia todo mundo no meio da conversa, falava muito, tinha pensamentos tão acelerados que diversas vezes antes de terminar um assunto já emendava em outro sem nunca terminar o anterior, era extremamente extrovertida e divertida, mas tanto, tanto, que chegava a ser inadequada ao lugar ou ao momento. Eu ficava mais confiante, tinha ideias brilhantes mas deixava os projetos pela metade, ficava destemida (saltei de paraquedas duas vezes, levava o cachorro para andar às três horas da madrugada sem medo nenhum, dirigia em alta velocidade e sem cinto), casei duas vezes com poucos meses de convivência anterior com meus companheiros, agia por impulso, comprava demais, comia demais, dormia muito pouco e às vezes passava noites em claro ou trocava o dia pela noite. Em alguma discussão não conseguia me colocar no lugar do outro e ver que ele tinha razão (não conseguia acompanhar o raciocínio do outro) e ficava com a libido super exacerbada. Meus filhos foram os que mais sofreram nessas fases (como disse também a atriz Cássia Kiss, bipolar). Apesar de comprar muitos presentes e ter ideias criativas (como fazer um piquenique secreto no jardim atrás do prédio), eu não tinha paciência com eles e tudo era exagerado, a irritabilidade ficava à flor da pele.

Foi depois de muitos anos de tratamento que eu me queixei à minha médica (depois de passar por várias outras) que minha libido variava demais e intensamente e que muitas vezes eu comprava por impulso. Vindo de um histórico familiar de TAB, ela fechou o diagnóstico. Comecei a receber o lítio, principal estabilizador de humor.

A euforia dá uma sensação de empoderamento, alegria esfuziante, é muito agradável, até certo ponto. Quando passa dos limites, quando é patológica, essa alegria imensa sem motivo nenhum e todos os outros sintomas descritos acima, nos deixam cansadas, nos desgastam física, emocional e financeiramente, além de muitas vezes abalar nossos relacionamentos tanto com colegas de trabalho quanto com as pessoas que mais amamos. A hipomania é menos drástica, mas se não cuidada também pode trazer consequências desagradáveis como estas.

A terapia, no meu caso psicanálise, me ajudou muito a reconhecer quando estou saindo do período de remissão, sem sintomas, e acelerando ou deprimindo. Por que mesmo medicada posso entrar numa crise? Percebi que fatores externos mexem demais comigo. Um luto, por exemplo, que em outra pessoa desencadearia uma tristeza, em mim pode desencadear um episódio depressivo. É como se eu fosse mais sensível a questões que podem gerar um sofrimento psíquico. Já a mania pode ser desencadeada se eu ingerir estimulantes e principalmente se passar a noite em claro ou me envolver em situações de extremo estresse.

E durante a depressão, como eu me sentia, a ponto de ter tentado suicídio algumas vezes? Sentia-me um fardo para as pessoas, uma péssima mãe, péssima filha, péssima em tudo, uma pessoa inútil e incapaz. Eu não saída do quarto, que vivia completamente fechado, escuro. Tinha dias em que não me levantava nem para tomar banho ou comer, dormia noite e dia. Ficava isolada de todos, principalmente de meus três filhos, que eu entendia não merecerem ver aquilo, eu sentia que por mais que os amasse, só os prejudicava. Era um sentimento de culpa sem fim, em relação a diversas coisas, inclusive ao suicídio de minha mãe. Sentia-me uma pessoa ruim. Além disso havia os sintomas físicos: lentidão, olhos pesados, muito sono, falta de apetite, dificuldade de concentração, não conseguia ler nem escrever ou ver um filme, tristeza profunda e sem motivo aparente, desânimo constante, sensação de peso no corpo. Eu tentava explicar o que sentia aos que me rodeavam, mas o silêncio também fazia parte de mim, as palavras não saíam, começava a chorar ininterruptamente, tinha ideação suicida.

Era o fundo do poço mesmo, mas as tentativas de suicídio não aconteceram nessas fases, aconteceram quando os antidepressivos começavam a fazer efeito e eu começava a ter ânimo para agir mas ainda estava com aquela profunda tristeza e sentimento de que todos ficariam melhor sem mim.

O TAB é uma doença crônica (sem cura mas pode ser mantida sob controle) que pode ser avassaladora com relação aos laços afetivos, afastando de nós pessoas muito amadas mas que não compreendem principalmente os períodos de crise. Foi libertador para mim, entender que a doença não é uma “desculpa”, como muitos pensam, é real e causa danos reais também. Perdi a conta de quantos relatos ouvi de pessoas que passaram pela mesma situação de descontrole emocional e afastamento muitas vezes irreversível de parentes e amigos mais próximos, tanto na depressão quanto na mania, hipomania e em episódios mistos.

Então se esta doença pode causar uma catástrofe na vida profissional e afetiva do portador, devemos correr para longe deles, não nos envolver principalmente emocionalmente, porque são descontrolados, certo? Em primeiro lugar, nos chamar de descontrolados é Psicofobia, preconceito a portadores de quaisquer transtornos mentais, e já é considerado crime, podendo ser denunciado. Em segundo lugar, cada um tem seu livre arbítrio, então depende de uma decisão pessoal. O doente bipolar tem uma doença crônica que pode ser tratada e ficar assintomática por anos, tendo também suas eventuais crises muito atenuadas, se for acompanhado por psiquiatra, psicoterapeuta, manter uma boa rotina de sono, evitar situações de estresse extremo, ter fé em algo também ajuda (durante muitos pensamentos suicidas eu temi a vida após a morte), e praticar atividade física, além de alguma ação social (para “sair do próprio umbigo”). Assim pode-se levar a vida tranquilamente, sem falar que geralmente bipolares são pessoas muito criativas e inteligentes, tornando a convivência peculiar e enriquecedora (eu consegui, como processo terapêutico, escrever um livro de poemas cujo objetivo é levantar uma bandeira contra a Psicofobia – Minhas Asas entre Letras, que pode ser adquirido pelo whatsapp 83 9 9142-8630). Vale procurar no Google famosos bipolares, há uma lista extensa de atores, escritores, cantores, pintores, enfim, artistas de diversas vertentes e épocas.

Mas por que essas variações? O que acontece no organismo de um bipolar? As crises não são chilique, invenção nem um problema psicológico. O que acontece é que nosso cérebro é doente. Assim como outras pessoas têm doenças nos pulmões, nos rins, coração, etc. Nosso cérebro funciona diferente. Como leiga, vou tentar explicar resumidamente, de forma simples: o neurônio é uma célula do sistema nervoso que produz neurotransmissores, responsáveis por levar informações a outras células. Eles são responsáveis por, desde a regulação do sono, do humor, funções intelectuais, motivação, foco, concentração, produtividade, sensação de dor ou de prazer, até batimentos cardíacos, ou seja, regulam todo o nosso organismo. Alguns são bem conhecidos, como a dopamina, a serotonina e a endorfina, mas existem dezenas deles. No cérebro de uma pessoa comum essas informações para outras células, por meio de impulsos elétricos, acontecem normalmente porque os neurônios produzem os neurotransmissores de forma adequada. Porém no cérebro de um bipolar a produção dos neurotransmissores é desregulada. Ora produz-se muito de um, ora pouco de outro e a comunicação entre as células é imperfeita. E é importante lembrar que a cada crise o quadro se agrava, porque é como se houvesse uma inflamação em alguns neurônios. Por isso é fundamental manter o tratamento mesmo quando não se está em crise (profilático), para evitá-la ou amenizá-la. Mas mesmo sabendo disso cerca de 1/3 dos pacientes abandona o tratamento em algum momento quando está em remissão e cada vez que o tratamento é interrompido, na volta a resposta aos medicamentos é mais difícil. Todo o quadro fica pior.

Essa dificuldade em se manter a adesão tem vários motivos: eu, por exemplo, detesto tomar vários remédios diariamente e já interrompi o tratamento, antes de saber disso tudo. Há quem tenha vergonha, por achar que psicotrópicos, ou os chamados pejorativamente de “remédios tarja preta”, são para doidos (isso é o caso de um auto-estigma, não aceitação ou preconceito contra sua própria condição). O preconceito social (estigma) e o auto-estigma levam o sujeito a sabotar o tratamento. Há também os que querem fugir dos efeitos colaterais (coisa que todo e qualquer remédio tem) e interrompem o tratamento ao invés de conversar com o psiquiatra, pois a medicação muitas vezes pode ser trocada ou ajustada. Além dos que têm medo de que antidepressivos e estabilizadores de humor causem dependência, o que é um mito.

Como já enfatizamos várias vezes o TAB não tem cura mas tem tratamento, assim como o diabetes e a pressão alta. Eu continuo com o tratamento medicamentoso prescrito pela psiquiatra, faço psicanálise há mais de 10 anos, comecei há alguns meses a praticar atividade física mas ainda tenho dificuldade em regularizar meu sono. Apesar disso não chego a ficar sem dormir e estou sem crise, em remissão, há muitos meses.

Procuro também sempre me atualizar e informar sobre a doença que tenho (se alguma informação aqui estiver errada peço que por gentileza me corrijam nos comentários). Isto ajuda a me entender melhor. O conteúdo deste texto, por exemplo, foi extraído de uma palestra que assisti da dra. Rosilda Antônio (psiquiatra e psicoterapeuta), uma entrevista “De Frente com Gabi” feita com a psiquiatra Doris Moreno e vídeos psicoeducativos da psiquiatra dra. Maria Fernanda, todos disponíveis no youtube, além de conversas com minha própria psiquiatra, dra. Glória Barros. Espero ter conseguido tirar algumas dúvidas.

Para quem tem facebook sugiro seguir a ABRATA – Associação Brasileira de Amigos, Parentes e Portadores de Transtorno Afetivo Bipolar, além de visitar a página oficial deles: www.abrata.org.br. No face também disponibilizo um espaço para interagirmos e trocarmos experiências, é a página Minhas Asas entre Letras. Tenho também um blog bem eclético, com textos informativos e muitos poemas, ficarei feliz com sua visita: www.renatamaia.info. Aproveito para divulgar nosso Grupo de Ajuda Mútua e Estudo sobre Transtorno Afetivo, – GRETA, que se reúne quinzenalmente na UFPB em João Pessoa. Para participar entre em contato pelo número de WhatsApp (83) 9 9142-8630.

 

 

One Comment

  1. Excelente texto. Bastante informativo que nos leva a refletir um pouco maIs sobre esse ainda tao pouco conhecido trastorno bipolar.

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