Vi a morte

planta morrendo

Hoje eu vi a morte. De novo. E percebi que a vejo todos os dias. Percebi que a vemos. Mesmo quando não notamos, a vemos. Mesmo quando não queremos, a vemos. Hoje eu vi a morte. De novo e de novo. Hoje eu me espantei com a morte.
Vi a morte em uma mulher desconhecida que se despedia da vida. Despia-se da vida. Perdeu um rim, estava perdendo o outro. Livrava-se então do que lhe pesava. Livrava-se de pertences materiais, uns poucos bens, e chorava quase em silêncio tentando livrar-se da dor de lutar em vão contra a correnteza que a carregava. Jovem, morrendo todos os dias. Lutando contra o câncer, uma luta inglória, já perdida. Uma luta chorada diariamente pelos dias que não virão mais. Passam amanheceres e anoiteceres e ela se despede de cada dia, de cada noite.
Eu vi a morte nessa jovem senhora. Vi a morte dela. Nela já morreu a esperança, resta apenas, diariamente, sua própria morte. Ela vive assim, sem sobreviver, apenas morrendo todos os dias.
Hoje eu senti a morte e a efemeridade da vida, senti a morte numa mulher que sonhava em poder sobreviver. Incansável, ainda indo a médicos e tomando remédios, medicações para seu conforto, não para sua cura. E ela chorava um choro contido, sussurrado, reclamando da solidão. Todos os dias aprendendo sozinha a viver com a morte, a lidar com essa solidão pesada demais para seu corpo alquebrado.
Eu vi a morte e me assustei.
Assustei-me com o quanto a vida é uma brisa breve demais, sutil e delicada demais, importante demais. Assustei-me com a quantidade de solidão espalhada pelo mundo, espelhada em cada um, e resistente dentro de mim.
Foi um susto! Um susto triste, impotente, pesado. Mas um susto que me fez abrir pelo menos um de meus olhos, terminantemente, para a vida. A nossa vida, permeada de morte; necessária, poderosa e valiosa… Vida.

2 Comments

  1. Poder morrer vivendo esse é o grande segredo!!!

    • maria helena brito nogueira

      A sensibilidade é tão intensa,que ao verem-se incompreendidos não é fácil aceitarem a realidade dos fatos.
      Daí um grande nº de doentes, ao sentirem-se contrariados e incompreendidos, não encontram a solução para a sua razão e desistem, pondo fim à vida .
      É nessas alturas que as famílias e amigos deviam prestar mais atenção aos comportamentos do doente e prestar-lhes o máximo de apoio de uma forma mais positiva, evitando os conflitos que só pioram as situações levando o doente a se afastar cada vez mais daqueles que por norma estavam do seu lado na vida.
      Não é fácil aceitar a linha de pensamento, quando se encontra em crise, mas é uma necessidade que compete ao médico e à família, estarem a par desses momentos e prestarem atenção aos fatores desencadeantes das crises.
      Se bem compreendidos estes doentes tendem a estabilizar e as crises passam e tudo volta ao normal.

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