Pensando em polemizar e polinizar…!

Chrysanthemum

Polemizar. Meu pai afirma que adoro fazer isto. O objetivo é sempre chamar a atenção. Mas a palavra que para ele remete à confusão ou exibicionismo, para mim lembra mais frutificar, florescer, jardinear, polinizar.
Muito clichê eu vir aqui escrever que as mudanças surgiram do que um dia foi uma polêmica. Não o consenso, mas a maturação dos pensamentos e atitudes de cada um e da sociedade como um todo, junto à democracia, surgiram no ventre das polêmicas.
Eu não tenho pretensão de mudar o mundo, nem sou nenhum gênio nem expoente ou exemplo em coisa alguma, mas pretendo mudar o meu mundo, sempre que ele gritar por avanços dentro de mim.
Assim eu construo minhas ideias e ideais, não pensando em atingir alguém especificamente, porque, sinceramente, nem sou tão maquiavélica, nem tão desocupada assim.
Passo ainda por centenas de etapas em minha vida. Nada de anos, de idade. Falo de recaídas e levantadas, de decisões e arrependimentos ou alegrias quase infinitas. É interminável. Estou agora em uma etapa de estabilização, por isso falo em jadinear. Ou floresço, ou resseco, mas estou semeada, e de sementes variadas.
Variam as cores, os odores, os tamanhos, as formas, os sabores, os propósitos, as origens, os cuidados, a persona de cada semente. Vario eu. Sem desvairar.
Adubando todo este caminho fui encontrando pedacinhos de família, por exemplo, como aprendi com minha mãe biológica, que chamava de “mãe paulista” a mãe de uma amiga dela de faculdade, que eu por consequência adotei como “vó Hilda”, demonstrando o profundo afeto que ao longo dos anos uniu as duas famílias.
Não parei mais. Depois da “avó de coração”, de quem minha avó biológica tinha até ciúmes, veio outra parentela afetiva, parentes que encontrei no jardim e nos adotamos. Além de uma “família buscapé” (no bom sentido) biológica, enorme, forte e com tudo de bom e de ruim; tenho outra “família buscapé”, que também faz suas bagunças. Somos nós: os tios que viraram pais – Nora e Ricardo; e outros pais, porque nunca é demais – Gilvanete, e o casal Glória e Edmundo. Tenho uma prima que virou irmã: Adriana; e amigas que também assumiram este posto, como Renata Câmara, Vânia Ferreira e Sílvia Lemos, entre outras.
E não é porque misturo amizade com amor, não. É porque algumas vezes o amor de amigo vira de avó, de pai, de mãe, de irmãos. Também tenho incontáveis primos que são amicíssimos, Juliana e Adriana, e amigos que são amigos mesmo, como os que deixei em São Paulo e os que construí aqui, poucos e valiosos.
Só por entender ou estender minhas raízes desta forma já estou polemizando. Ou polinizando… Bom saber que as Leis brasileiras, no que concerne à família, estão considerando muito os laços afetivos ao tratar da parentela, e não somente os biológicos.
Então quando tento um segundo casamento e com a separação meu caçula sofre abandono parental, se eu continuo colhendo família, estou ainda polemizando para agredir… Prefiro as flores de Vandré, e considero que ao aceitar para meu filho o amor de dois pais, porque são um casal homoafetivo, estou mais uma vez polinizando. Meu núcleo familiar, hoje, dá mesmo o que falar, mas daqui a alguns anos, será completamente comum.
Hoje sou eu, meus dois mais velhos do primeiro casamento, meu caçula do segundo casamento, e seus pais que são denominados “socioafetivos”. Não são pais de brincadeira. Eles têm vínculos de afeto e de responsabilidade. Brincam e conversam sério, passeiam e colocam de castigo, dão risada, levam para festas e ao médico, dão banho, fazem mingau, colocam para dormir, pegam na escola… Dividimos tudo isto e mais as despesas. Só não dividimos muitos momentos destes com a família, porque poucos entendem, e menos ainda são os que aceitam. Pena. Mas há mais de dois anos nossa “muda” cresce assim: com irmãos, a mamãe e os papais. E, acredite, muito feliz apesar de toda e qualquer polêmica.
Não pretendo levantar nenhuma bandeira LGBT, mas gostaria muito de ajudar a abaixar quaisquer bandeiras homofóbicas. Nunca entendi esse tipo de preconceito. Cansei de conhecer e até conviver com pessoas que se dizem héteros e são (pelo menos) bissexuais. Não concordo com a hipocrisia, mas o resto? Não me interessa! Não é a sexualidade que define perversão, moralidade, competência ou promiscuidade. Nada.
Há quem me pergunte se tenho medo de meu filho ser gay porque os pais dele são. Medo? Tenho medo de assalto, de estupro, de espancamento, rapto, assassinato, morrer queimada, afogada, ou ver um filho morrer, que é o maior deles. Medo de meu filho ser gay? Não, não tenho. Temo apenas o que ele pode sofrer por causa da intolerância e ignorância do mundo, mas meu filho seria um homossexual muito digno, porque nós três, seus pais reais, vamos lhe dar infinitas sementes de moralidade, respeito ao próximo, amor cristão, respeito a si, e pretendemos ensiná-lo, independente de qualquer coisa, a polemizar, ou polinizar, o seu próprio mundo. E eu ensinarei isto não só a ele, mas aos meus três filhos, porque esta é uma das minhas obrigações de mãe.

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