Entrevista com a psicóloga Milena Donato

Psicóloga pós-graduada, Milena Donato

Psicóloga pós-graduanda, Milena Donato

Milena Donato é psicóloga e acompanhante terapêutica formada na Universidade Católica de Pernambuco e pós-graduanda em Psicologia Clínica e Psicanálise no EPSI, Espaço Psicanalítico. Tem longa experiência em saúde mental e dor crônica, trabalhando em consultório particular e na rede municipal. De acordo com ela “a presença do psicólogo é fundamental não só para as pessoas com Transtorno Bipolar, mas para qualquer pessoa em sofrimento psíquico. No sentido de ser um acompanhante na busca pessoal pelo autoconhecimento, tornando o caminho menos solitário”. Vamos entender um pouco mais do que acontece com os pacientes e a família em relação à necessidade de acompanhamento psicoterapêutico.

Fechado o diagnóstico de transtorno mental com o médico, o paciente precisa da psicoterapia, mesmo já estando medicado?

É fundamental o elo entre o processo terapêutico e o tratamento medicamentoso, eles se complementam e ajudam no processo de equilíbrio da pessoa em sofrimento. A presença do psicólogo em todas as etapas do tratamento é necessária, sua companhia oferece ao cliente a segurança em caminhar para um estado de fluidez, de transformação e de vir a ser.

Quais as piores dores que o Transtorno leva os pacientes a experimentarem?

A dor mais trazida pelos clientes é a dor pelo desconhecido, o diagnóstico muitas vezes vem carregado de preconceitos, exclusão e incompreensões por parte da família, amigos e até da própria pessoa que sofre e que não aceita sua nova condição. Conhecer o que lhe causa sofrimento e aceitar o tratamento é fundamental para a busca do equilíbrio e para a diminuição do preconceito. Quando nos aceitamos fica menos difícil compreender a falta de aceitação do outro.

Qual o papel da família no tratamento? Há alguma diferença quando a família adota a postura de se afastar para não se envolver? Situações como essa são comuns? Como você acha que esse quadro pode ser revertido?

A família é o alicerce primeiro de cada ser, portanto parte fundamental no tratamento. O cliente com suas demandas de sofrimento não se apresenta sozinho, trás consigo toda sua história familiar. No entanto é muito comum os familiares apresentarem dificuldade no manejo da crise e acabarem se afastando ou não tolerando olhar e cuidar desse sofrimento. Nesse sentido o apoio familiar ou até mesmo a terapia familiar é importante para que juntos possam se fortalecer e prosseguir. Acredito também que quando esses encontros com a família não são possíveis, agregar amigos e pessoas próximas que estejam disponíveis afetivamente para ajudar a cuidar da pessoa em sofrimento faz toda a diferença. O importante é o afeto e a disponibilidade para cuidar.

A conduta é a mesma quando o paciente é adolescente ou criança?

No caso do tratamento de crianças ou adolescentes a participação da família é igualmente importante. Nesses casos, muitas vezes é a família que chega primeiro na clínica. É fundamental a parceria com a família ou com alguém que a represente no processo terapêutico da criança.

O que estaria faltando para haver mais aproximação da família? Sem esquecer também do papel dos amigos.

Isso vai depender de cada família em particular. Às vezes a família tem todo o conhecimento do adoecimento, mas internamente não consegue conviver com o que lhe causa sofrimento. Em muitos casos o membro familiar que adoece funciona como reflexo de sua própria dor, tornando insuportável a convivência. Por isso a terapia de família é muito importante para que todos juntos possam compreender melhor o momento difícil pelo qual estão passando. Não se pode perder de vista também, os amigos; estes contribuem demais para a reinserção social e uma vida mais saudável.

Um paciente que não consegue sair de uma crise depressiva provavelmente tem pouca força de vontade?

Na maioria dos casos não. A pessoa em uma franca crise depressiva não consegue erguer-se sozinha. Necessita de amparo e afeto para conseguir equilibrar-se. Uma paciente minha em uma de suas crises depressivas me contou uma história que exemplifica isso. Ela disse que se sentia como estivesse caindo com o carro em um abismo e ficado presa nas ferragens. Com o carro preso e em risco de explosão, ela, mesmo que quisesse, não conseguiria sair dali sozinha, precisava de um guincho para lhe ajudar. Essa história é um bom exemplo de que a pessoa em sofrimento psíquico precisa da ajuda de profissionais e de pessoas por quem tenha afeto que irão funcionar como guinchos, ajudando-os a levantar e prosseguir.

Algumas pessoas ainda têm vergonha de procurar um psicólogo e fazer terapia. Mas a depressão será a doença mais incapacitante dentro dos próximos anos no mundo, e o Transtorno Bipolar já é o que leva, além de qualquer outra doença, ao maior número de suicídios por ano no Brasil, de acordo com informações do site de Dr. Drauzio Varella e dados do Centro de Valorização da Vida, CVV. O que você pode dizer a respeito disto?

O Transtorno Bipolar é caracterizado por alterações de humor que se manifestam como episódios depressivos alternando-se com episódios de euforia. Podendo ter prevalência em um ou em outro polo, e muitas vezes causando a incapacitação e um grave sofrimento, chegando à morte por suicídio. De acordo com a ABTB – Associação Brasileira de Transtorno Bipolar, estima-se que até 50% dos portadores tentam suicídio ao menos uma vez e 15% efetivamente cometem. Portanto o tratamento adequado, com uma rede de atenção interdisciplinar (psiquiatra, psicólogo, arteterapeuta, acompanhante terapêutico…) é fundamental. Com o amparo profissional a pessoa em sofrimento começa um caminho de autoconhecimento para que possa enfrentar todos os obstáculos trazidos pelo transtorno e assim evitar uma nova crise.

A classe médica também já está bem conscientizada e aberta para trabalhar em parceria com psicólogos? A princípio a terapia é a curto, médio ou longo prazo?

A sociedade está cada vez mais aberta a ouvir e a discutir sobre a saúde e o adoecimento psíquico. Mesmo que ainda haja resistência e ou preconceito a respeito do tema, já observamos o aumento da procura pelo psicólogo, principalmente esperando resultados rápidos. No entanto, não temos como prever o tempo de tratamento; vai depender de cada história de vida e da dedicação da pessoa e dos que estão junto com ela.

Que outras atividades melhoraram a qualidade de vida de um paciente com Transtorno Afetivo Bipolar?

Existem vários recursos que podem ajudar no tratamento de qualquer transtorno psíquico. A arte e o esporte são dois deles. A utilização da arteterapia – utilização de recursos expressivos como pintura, desenho, música, poesia como recurso terapêutico, favorece ao desenvolvimento do potencial criativo através da liberdade para criar. Isso possibilita que a vida psíquica possa se equilibrar, e proporciona ao indivíduo uma forma de dinamizar sua condição inata de organizar suas percepções, sentimentos e sensações.

A ABRATA – Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos afirma que “o exercício físico atua simultaneamente no corpo e na mente; maximiza as capacidades funcionais para as atividades da vida diária; propicia o bem-estar geral, a sensação de esperança frente ao futuro, a reintegração social e a eficiência no trabalho. Neste sentido, possibilita a prevenção, a promoção bem como a reabilitação da saúde física e mental”.

Tudo isso é de suma importância para obtermos bons resultados no tratamento das pessoas com algum sofrimento psíquico. Mas o mais importante dos recursos é o Amor. Cuidar com Amor, olhar com Amor, acreditar no potencial de vida de cada Ser é fundamental para que a vida volte vagarosamente ao seu eixo de equilíbrio. Portanto vamos Amar, sem medo de tocar o outro. Como nos diz Carl Jung: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

About Renata Maia

Aprendiz da Vida, paulistana, alforriada, jornalista, suicidologista, ativista na luta contra a psicofobia, escritora, mãe de três futuros (Pedro, Clara e Davi), e de Esperança. Fundadora, em João Pessoa / PB, da Associação Vida Nova de Estudo e Apoio a Familiares e Portadores de Transtorno Bipolar ou Depressão - recomeçar é da nossa natureza!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • Arquivos