Infância

avoInfância

 

Doce era esperar pelas férias

Esperar as notas, a aprovação.

Doce era comunicar aos avós

E saber das passagens compradas.

Doce era escolher a melhor roupa

E seguir para o saguão de embarque.

Ver as cidades pequeninas,

Tremer ao tocar novamente no chão.

Rever tios e primos amados

Sentir o cheiro de mata

Ouvir mil pássaros, grilos e sapos.

Piscina, cavalo, manga direto do pé,

Vitamina de banana, doce de leite, jaca e tapioca.

Leite carregado da granja para as casas na cidade.

Tio com cara de bravo

Tia que era como uma mãe.

Avó querendo disciplina

Avô querendo só ser avô.

Minhas férias tinham a face enrugada

O andar arrastado e o sorriso iluminado.

Foi uma infância repleta de avós.

Infância de avô que comprava balinhas

E me deixou tão cedo…

De avó que tinha cheiro de amor

E palavra cúmplice,

Companheira de piqueniques no quarto

E passeios pelo Rio.

Outra avó tão ativa e bela e forte

Que aos 94 anos ainda nos acompanha.

E aquele avô…

Aquele leitor insaciável

Amante de Ernest Hemingway e Jorge Amado.

Aquele homem robusto

Que se derretia com os netos e conduzia trator e jipe,

Tomava cerveja e banho de rio.

Aquele avô sempre presente,

De longas conversas e histórias homéricas,

Impensáveis com outro personagem.

O avô de segredos e cumplicidade

De coração maior do que o peito

E uma mente sem limites,

À frente de todos nós.

O homem que virou passarinho

E, frágil, nos deixou órfãos.

O dono do nome herdado por meu filho

Deixou em meu peito uma chaga de saudade

Marcada em minha pele.

Uma inesquecível infância de avós

Que até hoje moram dentro de mim,

E por todo o tempo que ainda vier.

 

(Aos mais do que amados Maria Tereza, Antônio Corrêa e Erasmo Godofredo (in memorian), e Marluce Maia

 

 

 

 

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