Morrer de morte vivida

felicidade Há algumas semanas decidi fazer o que tenho vontade, sempre que isso não ferir ninguém. Enfrentar os medos, ou tabus, como por exemplo o que diz que uma mulher não deve sair sozinha a noite para se divertir. Por que não? Ontem saí do trabalho e resolvi ir dançar, acabei em Cabedelo (cidade vizinha), no bar dançante Varandas. Um senhor me chamou para dançar e perguntou: “Você veio com quem?” diante da resposta, ele quis saber: “E você não tem medo de sair sozinha?” Eu respondi apenas “não…”, com um sorriso educado, mas na cabeça outra resposta me importunava: “não… se eu tivesse medo de sair sozinha não iria fazer feira, nem trabalhar!” Considerando inclusive que meu horário de trabalho é noturno, portanto chego todos os dias em casa, sozinha, quase meia noite.

Medo? Medo todo mundo tem, de quase tudo. Acho que eu tenho também, mas simplesmente não penso nisso. Não penso nas mil possibilidades de assaltos, estupros e sequestros das quais posso ser vítima a qualquer momento. Não penso, porque de verdade, acredito que cada um só passa por aquilo que precisa passar. De verdade, acredito mesmo que Deus existe, não que Ele me livra de todos os males, mas que Ele é justo, acima de tudo, justo. Portanto, eu confio, acho que o medo não me protege, e vejo que não devo me queixar de absolutamente nada.

A noite foi ótima, dancei muito, tanto quanto eu desejava. E conheci pessoas. Conheci um homem, jornalista, bom dançarino. Dautônico (quando foi anotar meu telefone viu rosa uma caneta prata) e muito econômico (disse estar bêbado já, e na comanda só havia o registro do consumo de 4 cervejas), que fez de mim uma interessante análise. Perguntou, de repente, se eu era espírita. Quando disse que sim, há mais de 10 anos, ele comentou: “Eu sabia… você teve aqui um comportamento típico de quem é espírita”, eu não entendi e ele explicou: “chegou sozinha e ficou dançando no canto, perto da coluna, reservada, olhando fixamente para a banda, acompanhando as músicas sem dar atenção aos homens que passavam por perto, e só bebeu água, não consumiu nada de álcool.” Eu fiquei feliz por ouvir isso e refleti: de que adianta a teoria se não nos esforçamos para praticá-la? Espíritas não bebem? Bebem sim, mas devem fazê-lo com moderação e nunca antes de dirigir (um acidente fatal nesse caso é considerado suicídio e dentro da doutrina sabemos das consequências disso). Espírita não paquera? Paquera sim, mas procura valorizar as pessoas, os relacionamentos, e não o sexo (que é apenas um ótimo complemento de quando estamos envolvidos com alguém especial, já que atitudes promíscuas atraem por afinidade espíritos que são péssimas companhias e perturbam nosso juízo).

Pois é, a noite foi interessante, divertida, houve muita dança, uma boa conversa, muito bom humor e muito respeito; foi perfeita e terminou quando fui dormir, exausta e feliz, as 5 da manhã.

Hoje, sábado, saí do trabalho e de novo fui dançar. Dessa vez aqui na cidade mesmo, no Clube Cabo Branco, mas o jantar dançante que eu desejava foi cancelado para dar lugar a um show de forró pé-de-serra com Santana, O Cantador. Então me peguei refletindo: “e agora? vou pra casa? Vou nada! Vim dançar e é isso que eu vou fazer!” Assim, fiz amizade com o pessoal da banda, pedi para deixar minha bolsa junto aos pertences deles e fui para o meio da multidão forrozeira, fiquei logo em frente ao palco e encontrei velhos amigos, exatamente do centro espírita. Foi excelente! Forró pé de serra, artista da terra e muita água mineral! Pena que acabou cedo…

As 2 horas da madrugada eu estava na praia, procurando um lugar para sentar, ouvir música e ver gente. Como é interessante observar as pessoas! Muita gente bem jovem, muita gente já bêbada, muito som alto demais… Até que me deparei com um bar gay. Parecia estar escrito: área proibida. Aí a curiosidade aumentou. Mais uma vez, uma reflexão íntima: “quando um homossexual entra em um bar comum ele passa a ser heterossexual? Não… Então se eu entrar em um bar GLS não vou me tornar lésbica por isso!” E entrei. Só não gostei da música, mas a decoração é muito criativa, cada pessoa tem seu estilo e ninguém se olha estranho, ali caem as máscaras e todos se mostram como realmente são, ninguém se esconde no armário. O segurança é um negro muito bonito e bem humorado, eu dei risada vendo-o lidar com um bêbado que tentava entrar no lugar: “Esse perturba, viu? Todo sábado é a mesma coisa…”  Um bêbado bem conhecido, “famoso” já. O cardápio é uma coisa a parte, maravilhoso! Basicamente sanduíches, com baguette, pão integral ou pão sírio, com ingredientes maravilhosos como kani, palmito, champignon, ricota, queijo de búfalo, saladas, molhos, etc… E os garçons, a moça do caixa, a atendente do balcão e as moças da cozinha são uma simpatia! Fui a última cliente a sair e eu vi o bar esvaziando, a hora avançando, o cansaço chegando e eles sorrindo e brincando uns com os outros! “Ah! A essa hora e vocês estão com esse bom humor? Eu queria trabalhar aqui também!” Conversamos um pouco mais, a garçonete me ensinou uns sinais de Libras (ela faz o curso e anotou meu orkut, vai me avisar o início da próxima turma). Vejam só que noite riquíssima!!! E ainda conheci um rapaz e uma moça, ela morou em Toronto, tinha muitas histórias para contar e compartilhou algumas comigo, numa conversa deliciosa com pessoas muito inteligentes e que não tinham a mínima intenção de me impressionar.

Antes que alguém pense que eu me acho lá grande coisa, para ser tão “cantada” assim, eu explico que não é nada disso. Tem muito mais a ver com a cultura machista da cidade onde vivo, onde ainda é estranho uma mulher sair sozinha. Mulher sozinha em bar é entendida como mulher a procura de sexo, e  divorciada é tida como disponível… Machismo nordestino. Tive que me vacinar contra isso, depois de inúmeras abordagens de homens solteiros, separados ou casados. Confesso que acabei ficando meio chata, mas ainda me prefiro assim, chata, segura e seletiva, do que acuada por tantos rótulos ingratos e quase desumanos.

Bar fechando, encerrei experimentando a sugestão de uma nova amiga e pedi a torta de chocolate, que foi servida num prato decorado com calda, creme de leite, cereja e hortelã, tudo na borda, bem arrumado, belo! E realmente, como ela disse: “é de se comer de joelhos” – deliciosa! Puxa vida, será que tantas pessoas amadas por mim nunca vão poder desfrutar daquele cardápio e conhecer o bom humor daqueles funcionários, apenas porque ali é um bar gay? Pena… eu vou voltar, certamente.

Indo para casa, quatro horas da manhã, ainda tudo escuro, de repente um carro parado e cinco pessoas do lado de fora, numa rua deserta no Altiplano. Passei devagar, os rapazes andavam de um lado para o outro: um coçava a cabeça, um falava ao telefone, outro olhava para o chão e as duas moças olhavam a cena, de braços cruzados, apoiando a cabeça. Pensei: “estão com problemas” e perguntei o que havia acontecido. Um deles explicou: o jovem motorista subiu no meio fio, estourou os 2 pneus do lado direito e quebrou a jante (nem sei o que é isso, mas quebrou e não tinham seguro, nem telefone de reboque, nada). Certo, então vamos colocar os estepes, o do carro e o meu. Mas… O meu era de um tamanho diferente e não coube. Só o que pude fazer foi levar as moças para casa, mais de cinco da manhã. Íamos saindo e um dos rapazes disse: “Senhora, obrigado por ajudar, não sei como a senhora não teve medo, vindo sozinha.” Eu não podia perder a oportunidade, o “senhora” sempre fere meus ouvidos e mais uma vez a estranheza por eu estar apenas em minha boa companhia: “Bom, se me chamar de “senhora” de novo eu as deixo no meio do caminho. Medo eu tive, mas quem deixa o medo crescer demais não vive. Vê se vocês aprendem a sair pra beber e deixar sempre um sóbrio pra levar todos pra casa em segurança. E “obrigado” nada, quando eu ficar no prego, pode ter certeza que vou chamar um de vocês!” Ele riu e me fez anotar o telefone: “Olha, se ficar no prego em qualquer lugar dentro do estado da Paraíba, pode me chamar, estamos todos aqui te devendo uma troca de pneus!”

Pronto, o dia amanheceu e a noite foi perfeita de novo. Conheci várias pessoas e nem tenho mais medo de ficar no prego sozinha, em qualquer lugar da Paraíba! Bruno garantiu que vai me socorrer, e eu, como sempre, acredito nas pessoas! Minha vida está sendo muito melhor assim.

Cheguei em casa quase seis da manhã e pensei: “E se eu sofresse um acidente numa dessas saídas a noite? Se um bêbado perder o controle do carro e colidir com o meu? Se eu for assaltada e o ladrão ficar com raiva por eu não ter dinheiro (jornalista lisa) e me matar? E se antes de me matar, o cara, talvez drogado, me estuprar? E se eu for assassinada?” Pode acontecer? É, poder pode, né? Tudo pode. Mas coisas ruins também acontecem de dia, ou no caminho para o trabalho, ou na porta de casa. As coisas, boas ou ruins, acontecem quando têm que acontecer, porque Deus é justo. Então, se por acaso acontecer algo assim tão fatal, e perguntarem: “Como assim, Renata morreu? Ainda ontem ela postou mensagem no face! Morreu de morte matada?” Por favor, podem responder: “Não, Renata teve coragem de viver como queria, e estava vivendo muito, muito mesmo. Acabou morrendo assim, de morte vivida!” Tenham certeza: morrer porque vivi sem medo, experimentando situações, agindo de acordo com meus princípios e minha consciência, conhecendo gente e acreditando nas pessoas, me deixará tranquila.

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4 Comments

  1. adorei o texto e a maneira de ver as coisas…

  2. Irenita da Nobrega Poletto

    Renata, você é LINDA, BELA , GRANDE!!!! INTELIGENTÍSSIMA !!! É realmente D + !!!!!!!
    Apesar de tudo que passou, continua tendo esse olhar sincero e radioso para vida!!! Que coisa bela ! Que saudade grande que sinto de você !!! Parabéns ! Vc compartilha de maneira clara e acolhedora.
    Lendo o seu texto, senti uma vontade enorme de estar junto de você simplesmente conversando, e conversando…
    Muito bom mesmo !
    Beijos
    Irê

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