Pode-se amar sem acreditar nas pessoas?

Vale a pena vermos o que estamos prestes a receber.

É quase uma moda mostrar-se incrédula diante de praticamente todas as pessoas, como consequência de já ter sido magoada, traída, ferida, enganada… De certa forma, dizendo que é uma maneira de nos proteger, também acabamos pedindo, implicitamente: por favor, não me engane, não me machuque. O que aparentemente pode querer ser o retrato de uma fortaleza, dizendo: “estou cuidando de mim, me prevenindo”; “trancando a casa para o bandido não entrar”; ou “eu consigo me manter bem, sem deixar ninguém me ferir”; talvez esconda uma fragilidade traduzida em: “pode cuidar de mim, por favor? Pode ter o cuidado de não me ferir?”

A “moda da pessoa vivida e traumatizada” que acaba despertando compaixão ou impaciência, não é uma boa tendência a ser seguida… É importante o exercício da auto-reflexão, a análise das experiências vividas, o balanço sincero do que aprendemos e do que ainda estamos aprendendo com o que aconteceu; mas tornar-se descrente perante as pessoas é cruel, cruel com os outros e conosco mesmo. Cruel, porque pesa duvidar de tudo e de todos. A descrença nos impede de acolher o outro, e como é dolorido ter braços assim, inúteis ao abraço aberto, confiante e aconchegante. A descrença não nos deixa nem conhecer o outro… ele fala e nós avaliamos cada vírgula, trabalhosamente. Penoso “confiar desconfiando”. Como nos aproximar de alguém se nosso pé direito quer ir a esse encontro mas o esquerdo insiste em nos arrastar para trás? Não saímos do canto. E mesmo que o outro venha até nós, nossos braços trabalham de acordo com nossos pés, se estes estão em desarmonia, os braços ficarão cruzados, desconfiadamente nos protegendo e nos mantendo só.

O risco de abrir os braços e seguir em frente é enorme! Mas só assim podemos descobrir o calor do abraço do outro e tudo que o mundo dele pode nos oferecer, podemos descobrir novas paragens e a maravilha que é compartilhar a caminhada e o calor do aconchego. Mais na frente pode haver um abismo, ou o outro a quem nos dirigimos pode nos dar as costas e seguir outro rumo, mas a paralisia causada pela dúvida parece-me pior do que quaisquer outras possibilidades. O ser humano precisa estar em movimento, sempre, para não adoecer e morrer. Assim acontece conosco, em todos os sentidos, e só por isso, já valeria a pena abrir os braços e começar a caminhar.

Há ainda mais um detalhe importante: Como fica “o outro” nessa história toda? O outro, que bem pode ser eu, um dia, vista sob o seu olhar. Importantíssimo exercício esse, da empatia. Como nos sentiríamos, querendo nos aproximar de alguém, e conseguindo vê-lo apenas através de uma parede de vidro blindado, intransponível e construída por qualquer pessoa, menos por nós mesmos? Como nos sentiríamos querendo nos fazer entender, tentando nos comunicar, e a pessoa absolutamente descrente, portanto nada receptiva? Qual a sensação de estar se desnudando a alguém e sendo friamente analisado e interrogado, sob uma dúvida nada imparcial e completamente destrutiva?

É preciso o meio termo. É preciso haver uma maneira de conseguirmos escutar o outro apesar de nossas próprias dores, porque não conseguir escutar mais ninguém, por si só, dói ainda mais. Há de existir um modo de abrir os braços, mesmo machucados, e caminhar, mesmo que a passos lentos, rumo a esse encontro que pode ser caloroso ou apenas enriquecedor de alguma forma. Como querer o respeito, como pedir: “por favor, não me engane” se temos também uma postura desrespeitosa quando desde o princípio dizemos: “não consigo acreditar em você”? Se o outro só é desacreditado, para quê se expor? Então… Haja desencontros!

Eu era uma que seguia a comodidade da moda da “magoada descrente”. Pura incongruência! Até o momento em que me deparei com este pensamento, que abriu meus olhos e meus braços: “É melhor confiar em todos e ser enganado, e chorar aquela confiança, aquela traição, do que duvidar de um coração, o qual, se nele confiasse, teria abençoado uma vida com a verdadeira crença” (A. Kemble).  Afinal, ser enganado é uma possibilidade, não uma certeza. Consegui fazer uma reflexão e entender o equívoco que era minha paralisia.

casalde papelao 2É preciso acreditar! Desacreditar sempre, é uma atitude desrespeitosa com o outro e que não me protege, apenas me isola e entristece, me pesa, me custa, me torna deselegante e contraditória. Eu quero amar as pessoas, prezo o respeito, a derrubada de preconceitos, a prática da resiliência, da empatia e do acolhimento ao próximo. Então, eu tenho que acreditar nas pessoas! Definitivamente, não consigo amar alguém em quem eu não acredito…! Por isso, hoje vejo claramente o valor dessas palavras que agora faço questão de incorporar aos meus mantras diários: “eu acredito em você!”.

2 Comments

  1. Lindo, lindo! Parabéns Renata.
    Desde garotinha você tem essa competência extraordinária de desvelar seu mundo e o dos outros em seus escritos. Continue, escreva mais, escreva sempre! Beijos

    • Acho que ela ia adorar, Wal. Que bom que você gostou. Vocês são muito importantes para mim!!Aqui fica o convite: Leia, leia e compartilhe sempre que puder! rsrsrs Beijo no seu coração enorme!!!

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